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Ata da reunião de 8/05/2017 – Série Visões com Coletivos da ECA “Visões Coletivas”

“Visões Coletivas”

Esta edição da Série Visões reuniu 3 coletivos da ECA-USP para contar suas experiências e somar forças com a Sonora na empreitada de dar mais visibilidade, abrir espaços e romper barreiras para as mulheres. O primeiro coletivo a se apresentar foi a coletiva Vulva da Vovó, e seguiu-se com o Coletivo da ECA e o CALC – com enfoque no Núcleo Anti-opressão do centro.

Vulva da Vovó

Formada por 11 mulheres e 1 homem, tem foco nas artes cênicas. Têm o feminismo com método, o que inclui participar e montar peças de teatro de autores masculinos com olhar feminista. Feminismo interseccional – gênero, raça e classe – perpassa a poética desta coletiva, fazendo com que elas batalhem para levar as peças a localidades fora do centro onde peças deste tipo tem menos alcance.

Fazem eventos como o Festival Feminista, entre outros, em que divulgam outros braços da coletiva, como a editoração. Este ano será lançada a tradução de um texto de escritora latino-americana. A América Latina está no foco da coletiva.

Outro foco é o ambiente acadêmico, bastante machista e classista. A coletiva percebe o quanto as universidades públicas em geral – e a USP talvez mais do que a UNESP, por exemplo, pelo fato de ter cursos formatados em período integral impedindo alunxs de trabalhar – são hostis a grande parte da população.

Coletivo Feminista da ECA

Surgiu em 2013 durante uma greve da universidade. Criou-se uma iniciativa de empoderamento para discutir questões ligadas ao feminismo e à universidade. Este ano o coletivo está tentando retomar as atividades, uma vez que coletivos em geral estão um tanto desativados pelo viés político que representam.

O coletivo gostaria de reunir mais pessoas da ECA, não só alunas e tampouco de um curso específico. Elas estão preparando uma semana da arte feminista para unir pessoas interessadas no assunto.

Este ano elas fizeram uma intervenção na sala de um professor do curso de jornalismo, autor das fotos divulgadas de D. Marisa no hospital. Elas levaram a bateria da ECA e colaram cartazes sobre falta de ética, machismo e assédios em geral. O professor abriu um processo contra as alunas envolvidas no ato.

Dia 24/5 terá um sarau organizado por elas, entre outras atividades. Foi colocada a necessidade de ter mais integrantes para se envolver com as atividades.

É um coletivo auto organizado que se reúne semanalmente. O objetivo é acolher pessoas de todas as praias, ideias e posicionamentos, desde que tenham interesse em questões feministas.

CALC – Centro Acadêmico Lupe Coltrim

Entre os núcleos do centro há o Núcleo Anti-opressão, criado para proteger pessoas vulneráveis principalmente nos dias atuais. Agem conjuntamente com o Coletivo Feminista da ECA em muitas vertentes, pois as dificuldades são comuns. Elas entendem que o Movimento Estudantil as coloca um tanto quanto de lado e que seu enfoque é machista. Por esta razão se unem e se fortalecem.

A gestão atual iniciou-se em novembro. Tem sido particularmente difícil, desde o fechamento da prainha com grades visíveis e invisíveis. Elas colocam o fato de um aluno estuprador ter sido diplomado como mostra do descaso com as questões de vulnerabilidade das mulheres.

O CALC tem um núcleo de eventos. A Semana Emancipa foi um destes eventos, debatendo questões com pessoas de outras áreas da universidade. Nesta semana elas conheceram a Sonora, uma vez que tinha uma integrante falando da opressão da mulher na música. Também conheceram representantes do feminismo negro, LGBT, entre outras.

Na próxima semana elas tem um evento sobre Comunicação Pública.

Foi levantada a questão da neutralização de questões feministas pelos chamados “esquerdo-machos”, pessoas envolvidas com temáticas ditas “de esquerda” que, de certa maneira, zombam do discurso feminista.

Também foi mencionado o documentário “Precisamos falar sobre assédio”, cuja autora vai fazer, com o CALC, um evento de apresentação e discussão sobre o mesmo.

Debate

Uma integrante perguntou se o CALC já se envolveu com a questão do assédio entre professores e alunxs. Se já fizeram ações para defender o interesse de alunxs a partir de um canal de denúncias. A representante do Núcleo Anti-opressão disse que há iniciativas em andamento, sendo pensadas, mas que é difícil.

Foi perguntado o que é uma denúncia institucional. A mesma representante contou um caso sobre um processo de sindicância em que uma aluna abriu uma queixa e depois desistiu e o caso foi esquecido.

Nas artes cênicas isto é particularmente difícil, porque existe um discurso de que o professor de teatro deve incitar xs alunxs a se soltarem, a liberar o corpo, a “lidar com estas questões”. Neste contexto o assédio segue ocorrendo envolto num véu de “metodologia”.

Foi observado que o liberalismo também vem adotando discursos pseudo-feministas, aproveitando a recepção que o assunto alcança em termos de mercado. Artistas aparecendo mais, editais para criações voltadas ao gênero e outras iniciativas podem maquiar o cerceamento que as mulheres enfrentam o tempo todo da vida.

Foi mencionada a mudança que a USP está vivenciando no sentido de tornar a universidade cada vez mais propícia a pessoas que tem carro, com viés mais elitista. As grades da prainha fazem a comunidade dar uma volta enorme para chegar a certos departamentos da ECA, o que no caso das mulheres pode significar maior vulnerabilidade, principalmente a noite. A possível reforma da “vivência” é outro tema polêmico por não ser uma prioridade. Outras ações seriam mais urgentes e até mais simples, como a compra de lâmpadas para a Praça do Relógio, entre outras.

Uma pergunta relevante foi como estes coletivos atraem integrantes para suas atividades. O Coletivo Feminista já tinha mencionado os saraus, que costumam reunir muita gente.

Foi falado sobre a falta de experiência para lidar com denúncias, que providências tomar, que atitude cabe nestes casos. Muitas mulheres não querem que suas histórias sejam “invadidas”, ainda que seja para fortalecer a causa.

A idade também começa a pesar para algumas integrantes dos coletivos, no sentido de que os ambientes de trabalho demonizam pessoas envolvidas nestas práticas. Algumas apontam que enquanto eram estudantes se sentiam mais livres para agir, e que depois de formadas temem por seus empregos.

O encolhimento dos espaços de convivência estudantil foi apontado como colaborador da dificuldade dos coletivos de atrair pessoas interessadas. Cada vez mais xs alunxs ficam fechadxs na sala de aula. Neste sentido a questão das grades corroboram com o afastamento em geral.

Isto se liga diretamente à questão do produtivismo. Na pós-graduacão, especialmente, alunxs tem muita demanda e ela dificulta outras áreas de atuação.

A questão das cotas foi aventada. O CALC disse que a luta por cotas sempre foi presente, mas ainda não computam muitos resultados favoráveis. O assunto está bem mais pautado, há comissões que representam a pauta, porém ainda não atingiram muitos objetivos práticos. Na música as cotas esbarram no exame de aptidão.

O eurocentrismo também é um cânone arcaico que se perpetua e é excludente. Esta é uma outra batalha a ser travada. A representante da Vulva da Vovó se ofereceu para compartilhar textos latino-americanos para reflexão.

Foi sugerida a ideia de redigirmos um documento coletivamente, propondo as mudanças que foram mencionadas como urgentes neste evento.

De modo geral, todxs ficaram muito felizes com este encontro dxs coletivxs. Houve uma empatia muito grande e aflorou um enorme desejo de atuar coletivamente.

 

 

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Visões Coletivas (Divulgação)

 

Sonora convida para mais uma edição da série Visões na próxima segunda-feira, 08/05, às 17h30. Nesse encontro reuniremos três coletivos para falarem de seu funcionamento, pautas, ações e posicionamentos: Coletivo Feminista da ECA, Núcleo Anti-Opressões do CALC e Coletiva Vulva da Vovó. Todos eles estão ligados de algum modo à Escola de Comunicações e Artes da USP, e esse encontro faz parte do desejo de pensar coletivamente as questões de gênero dentro da escola.

O Coletivo Feminista da ECA é uma entidade auto-organizada representativa de todas as Ecanas, alunas e funcionárias. Através de reuniões semanais e debates promovem: rodas de conversas, saraus, atos, oficinas, reviradas feministas e eventualmente estabelecem parcerias com outros coletivos e entidades da USP. Visando sempre o empoderamento feminino e a equidade de gênero dentro e fora da universidade e em demais espaços sociais.

O Núcleo Anti-Opressões do CALC, na gestão 2017, nasce como mais um dos núcleos da organização interna do Centro Acadêmico. Encabeçado por duas diretoras, mas encaminhado por todas as mulheres da gestão, ele surge para impulsionar os já existentes coletivos auto-organizados da ECA e, também, para pensar em iniciativas próprias.

A Coletiva Vulva da Vovó  nasceu em dezembro de 2014 do encontro de pessoas interessadas na produção e difusão da cultura feminista através de um fazer artístico livre, transversal e autônomo. Entre nossas principais ações se destacam  a realização do Festival Autônomo Feminista que terá sua 4ª edição em 2017, e o espetáculo teatral Sobre as Baleias, que estreou em 2016 e trata da luta das Mães de Maio em São Paulo e das Mães e Avós da Praça de Maio, na Argentina.
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Vozes – Ariane Stolfi (Divulgação)

Sonora convida para mais uma edição da série Vozes na próxima segunda-feira, 3/04/2017, às 17h30. Nesse encontro receberemos a artista Ariane Stolfi.

 

 

Ariane Stolfi é música, arquiteta, programadora e transita por várias linguagens, edita o site de música experimental finetanks.com. Mestre em design e arquitetura pela FAU-USP e doutoranda em Sonologia pela ECA-USP, desenvolve interfaces interativas em HTML e Pure Data, como o hexagrama essa é pra tocar para a exposição Gil70, em parceria com Gabriel Kerhart e Daniel Scandurra e a performance cromocinética, com o coletivo 24h. Participou dos festivais Submidialogias (2010), #Dis Experimental (2011) e da Virada Cultural (2012). Desde 2015 faz parte do grupo Sonora, músicas e feminismos, e do NuSom – Núcleo de Pesquisas em Sonologia da USP, onde desenvolve o projeto Banda Aberta em parceria com Fabio Goródscy e participa com o grupo de improvisação livre Orquestra Errante como cantora e percussionista.

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Ata da reunião de 03/04/2017 – Série Vozes com Ariane Stolfi

Nesta entrevista da série Vozes, Ariane Stolfi contou sobre sua trajetória a partir de uma formação em Arquitetura (mais focada em web design) rumo à pesquisa em música na ECA-USP. Atualmente ela é doutoranda no Depto. de Música desta universidade, e está de partida para uma experiência de bolsa-sanduíche na Inglaterra.

Ariane iniciou a busca em música através de programas como PD, linguagem html, entre outras. Trabalhou em instalações e performances, colaborando na parte de design e tecnologia e aprendendo a parte musical com artistas parceiros. Foi se inserindo na produção de ruídos eletrônicos, aprimorando a técnica e refinando a sonoridade obtida, até decidir entrar na área musical da academia, onde é membro do NuSom, Orquestra Errante, rede Sonora, etc.

Na pós-graduação em música, Ariane retomou o trabalho com a própria voz, que havia deixado um pouco de lado após algumas experiências cantando marchinhas de carnaval e outras composições próprias. Redescobriu também o xequerê, instrumento que toca na Orquestra Errante e em blocos dos quais faz parte. O trabalho vocal foi no campo experimental, com ruídos guturais, texturas e sonoridades diversas. Alguns exemplos destas práticas estão no seu soundcloud.

O blókõkê foi outra investida, em contato com pessoas de baterias diversas, arquitetas e arquitetos com desejo de fazer música. O bloco toca música de karaokê, coisas que todos saibam a letra e vários microfones para que o público participe.

As experiências com improvisação e arte sonora estão também em seu projeto banda aberta. Ariane se interessa pelo lado lúdico, acessível e abrangente do fazer musical, o que é possibilitado pela tecnologia do projeto Banda Aberta. As letras e sílabas são transformadas em tipologias, com as que brinca criando desenhos, séries e módulos. Cria frequências e as associa a vogais e consoantes. O resultado é dinâmico e, ao mesmo tempo, controlável.

O público da série Vozes pôde interagir e experimentar seu programa de Banda Aberta: cada um com seu celular escrevia frases, letras, palavras, e isso era transformado em som que ia se somando aos demais. Inclusive as pessoas que assistiram por hangout.

Ariane usa programas da arquitetura na música. Ela consegue transpor uma linguagem para o outro campo com facilidade. Gosta de criar ferramentas para criar, para si mesma e para outras pessoas.

Tem também experiência docente, na faculdade de arquitetura. O Doutorado vem também potencializar esta sua via produtiva.

Em relação ao feminismo, Ariane disse que não pensava tanto em questão de gênero, mas em questões de classe. Porém, ela entende que as mulheres têm mais dificuldade de se colocar na música experimental, tecnológica, o que, em termos, a obriga a ter uma titulação como o Doutorado para ter um espaço neste ambiente. Sua entrada na Sonora lhe mostrou que ela não é a única a sofrer com estas barreiras.

 

 

 

 

 

 

 

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Ata da 7ª Reunião do 2º semestre 02/10/2016 Série Vozes com Janete El Haouli

Tópicos abordados

Janete começou dizendo que estava feliz em voltar para casa, pois fez Mestrado e Doutorado na ECA. O projeto da Radio-Arte fez parte de seu Doutorado, cursado no Depto de Cinema (Audiovisual). Janete é Bacharel em Piano, mas se identifica como intérprete, professora, pesquisadora, produtora e artista sonora. Entre os tópicos enfocados pela musicista estão:

  • Infância em Cambé (PR). Em sua casa ouvia música libanesa tradicional, como o Sabah, entre outros. Janete foi fortemente influenciada por esta cultura. Como o ambiente fosse conservador e rígido, sua mãe exigiu que estudasse piano, pois era um estudo artístico considerado recatado.
  • Foi muito bem-sucedida na carreira de intérprete do piano, ganhando vários primeiros prêmios de interpretação.
  • Posteriormente estudou com Hans Joachim Koellreutter, que lhe apresentou um novo mundo sonoro e social. Janete deixou o piano temporariamente, enveredando pela música contemporânea através de várias vertentes.
  • Trabalhou na Universidade de Londrina, onde assumiu a Radio Universitária. Sua primeira entrada no estúdio de rádio foi em 1991, produzindo um programa de música contemporânea. Seus programas eram focados na imprevisibilidade. Ela programava propositadamente músicas totalmente díspares, para manter o ouvinte atento e dar-lhes coisas novas (ou pouco conhecidas).
  • Poucas mulheres fazem radio no Brasil e no mundo. Janete encontrou bastante resistência ao apresentar seu programa Música Nova por não ter um formato convencional. Terminou por fazer desta experiência objeto de seu Doutorado, durante o qual foi à Europa conhecer diversos estúdios de radio. Trabalhou com Hermeto Paschoal, entre outros.
  • Nesta Serie Vozes, Janete apresentou um trabalho de radio-arte feito na Alemanha, baseado em Demetrio Stratos. Demetrio, músico grego nascido em Alexandria, foi objeto de sua pesquisa de Mestrado. Neste programa de radio ela misturou textos e melodias processadas, que giravam em torno de Demetrio.
  • Outro trabalho apresentado foi RadioRizoma.
  • Janete falou da diferença entre produzir um programa de radio artístico na Alemanha e em Londrina. Na Alemanha o trabalho era comissionado e a instituição financiadora ficava com a obra. O(A) autor(a) não ficava com cópia de sua obra, que poderia ser repetida mediante pagamento parcial.
  • Perguntada sobre o que ainda a surpreende em matéria de som, Janete contou que anda por diferentes lugares gravando paisagens sonoras. Ela gosta também de músicas de tradição e transmissão oral, música étnica, diversos tipos.
  • Janete contou sobre a problemática do poder, de quando os(as) detentores(as) do poder percebem o quanto a audiência é significativa e mudam o direcionamento das rádios. O aspecto educativo é deixado em segundo plano, quando não é deturpado em seus objetivos de educação estética.
  • A radio deixou de ser veículo de informação para ser um repositório, que a(o) ouvinte acessa quando quer e escolhe a programação. Isto muda o caráter de atividade artística do veículo de comunicação.
  • Valeria perguntou sobre a questão de gênero no âmbito da radio. Janete disse que não costuma se ater muito a pesquisar o assunto, mas que o gênero certamente influenciou sua trajetória e continua marcando sua vida.
  • Em sua opinião, muitas mulheres não têm clareza em relação ao que querem. Quando esta clareza existe, ainda assim não é fácil. É preciso ter coragem. Janete assumiu varias posições de liderança durante a carreira profissional e diz que as mulheres precisam assumir riscos e enfrentar barreiras.
  • Várias(os) ouvintes fizeram perguntas e elogiaram muito a apresentação da musicista.
  • Sua última apresentação foi uma gravação de sua mãe um mês antes de falecer. Sobre esta gravação há uma locução/intervenção que colabora no sentido de lhe dar expressividade.

 

Próximo encontro

  • Dia 10/10 Reunião Operacional

 

O encontro de hoje está disponível em:

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Vozes – Janete El Haouli (divulgação)

Sonora convida para mais uma edição da série Vozes na próxima segunda-feira, 3/10, às 17h30. Nesse encontro receberemos a artista Janete El Haouli.

 

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Janete El Haouli é musicista, produtora cultural e pesquisadora com ênfase em rádio como mídia experimental, em voz musical estendida, ecologia sonora e paisagem sonora. Possui bacharelado em Música (piano) pela Faculdade de Música Mãe de Deus de Londrina, PR (1977), Mestrado em Ciências da Comunicação com a dissertação “Demetrio Stratos: a escuta da voz-música” (1993) e Doutorado em Artes com a tese “RadioPaisagem” (2000), os dois últimos pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou um Pós-doutorado pela Escola de Musica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre “Arte Acústica Radiofônica” (2007) e foi Professora na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Departamento de Música e Teatro, entre 1981-2011. Criou e coordenou o programa radiofônico “Música Nova: rádio para ouvidos pensantes” (1991-2005) pela Radio UEL-FM e o Núcleo de Música Contemporânea da UEL (1993-2008). Foi diretora da Rádio Educativa UEL-FM (2001-2005), da Casa de Cultura da UEL (2007-2010) e do Setor de Informação e Comunicação do Centro Cultural São Paulo (2012). Em 2013 criou e atualmente coordena o espaço ‘TOCA: arte ação criação” na cidade de Londrina, através do qual segue promovendo e organizando atividades pedagógicas, de criação e de pesquisas na área da experimentação vocal, da arte radiofônica, da criação com paisagens sonoras e da ecologia sonora. Seus trabalhos tem sido apresentados em eventos no Brasil e no Exterior. Em 2014 recebeu prêmio internacional no Concurso de Produções Radiofônicas da 10ª Bienal Internacional de Rádio do Mexico. Integra o Collectif Environnement Sonore (France- Suisse) e o Grupo Ars Acustica International.

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Ata da 21ª Reunião – Série Vozes com Valéria Bonafé – (27/06/2016).

“A casa e a represa, a sorte e o corte – ou: a composição musical enquanto imaginação de formas, sonoridades, tempos [e espaços]”. Por Valéria Bonafé. 

Tópicos

  • Valéria pautou este encontro da série Vozes em sua tese de Doutorado, intitulada “A casa e a represa, a sorte e o corte – ou: a composição musical enquanto imaginação de formas, sonoridades, tempos [e espaços]”. Para conduzir o público pelas diversas linhas que tecem seu trabalho ela propôs algumas leituras e escutas durante a apresentação. Os materiais sugeridos foram usados em sua pesquisa e também são citados na redação final.
  • Um dos textos lidos foi Palomar na praia – leitura de uma onda, de Ítalo Calvino. Palomar foi o último personagem criado por Calvino e tem o mesmo nome de um observatório norte-americano. Ele também é um observador, ponto que o aproxima do pesquisador.
  • O outro texto, A arte da pesquisa em artes – traçando práxis e reflexão, de Kathleen Coessens, versou sobre a diferença entre a visão prismática e a visão binocular. Kathleen diz que “a arte não olha para o mundo através de binóculos, mas sim através de um prisma”. Valéria compartilha esta ideia de Coessens, evocando a imagem da câmara de espelhos projetada por Leonardo da Vinci.
  • Com os elementos citados Valéria compara a pesquisa científica, que relaciona à visão binocular, à pesquisa artística, relacionada ao prisma. Sua tese enfoca a análise e a composição musical. Enquanto disserta sobre aspectos composicionais, a autora se autoanalisa. É este lugar de crítica objetiva e de subjetividade que está sendo pesquisado e apresentado em sua tese.
  • A menina que virou chuva, composta para orquestra em 2013, é uma das peças descortinadas pela compositora. Ela conta como a ideia surgiu, numa noite em que sua irmã dera à luz uma menina. O bebê teve uma curta trajetória na vida familiar de Valéria, vindo a falecer em poucas horas. A artista decide então trabalhar com a morte, elaborando o material composicional como elaborou o sentimento do luto pela sobrinha.
  • A peça foi dividida em 3 partes, relacionadas a momentos naturais da formação da chuva. Evaporação, condensação e liquidificação são associadas a emoções que se transformam com o passar do tempo, como numa experiência de perda.
  • Apesar de testemunhar que a imagem é bastante relevante em suas criações, Valéria conta que fez a nota de programa para a estreia da peça totalmente desvinculada de qualquer conteúdo programático. Expôs somente os dados teóricos, informações sobre intervalos, clusters, etc. 
  • A escrita usada em sua tese é bastante flexível, passa tanto por descrições minuciosas de detalhes técnicos como por trechos autobiográficos mais coloquiais. A intenção foi ordenar momentos de sua vida profissional, pontuando sua obra.
  • O resultado é uma tese com formato é livre e artístico, dando prioridade à estética, à poética e à informação. É uma forma ousada, considerando o contexto acadêmico em que foi gerada e onde está prestes a ser arguida.

Do debate

  • Entre as questões suscitadas pela apresentação de Valéria, uma abordou a resistência da autora em relatar o momento emocional que inspirou a composição A menina que virou chuva. Foi perguntado também se a questão de gênero pesou para que ela assumisse uma escrita mais científica, desvinculada de aspectos tido como sensíveis – habitualmente relacionados à figura feminina.
  • Valéria disse que a pseudo “timidez” tinha mais a ver com o momento de sua carreira, em que ela ainda não tinha tanta experiência em escrever programas para suas próprias peças. Sua “personalidade artística” estava um tanto quanto em formação. A escrita de sua tese, num formato fora dos padrões acadêmicos, mostra como este trajeto já está bastante sedimentado, tendo mais a ver com seu desejo de como quer ser entendida pelo público.
  • Outra questão foi sobre o formato do texto da tese. Valéria disse que escolheu escrever em pequenos cadernos para não “entregar” a sua própria interpretação ao leitor. Ela espera que o leitor mergulhe nos diferentes cadernos, vídeos e gravações, assimilando as informações sobre sua música à sua maneira. Como se o leitor entrasse com a tese na câmara de espelhos de da Vinci.
  • Surgiu também o interesse no que resultou do processo de autoanálise a que a autora se submeteu durante a confecção de sua tese. Se ela encontrou “lados obscuros” de sua personalidade e se este processo motivou outras escolhas composicionais.
  • Valéria disse que a tese motivou uma retomada de material e de processos que foi gostosa e importante. No momento atual ela se diz ansiosa por compor, já que esteve envolvida com a redação do trabalho por mais de um ano.
  • Em relação a sua relação com a interpretação de sua obra, Valéria disse que gosta de interagir com o/a intérprete na construção das sonoridades de suas peças. Ela disse que toca suas obras ao piano, nem sempre na velocidade ideal, mas nunca as ouve no computador. Escreve à mão, no papel, depois passa para a versão digitalizada.
  • Em relação ao feminismo, diz que o convívio com a Sonora impactou sua vivência pessoal e profissional. Isto pode ser notado em sua tese, influenciando a maneira como a redigiu. Já há algum tempo Valéria havia percebido a pouca representatividade das mulheres na composição erudita, quão poucas eram suas colegas na faculdade e no meio musical em geral. Há uma vontade de modificar e recriar este panorama.

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Vozes – Valéria Bonafé (Divulgação)

flyer_valéria

 

Sonora convida para mais uma edição da série Vozes na próxima segunda-feira, 27/06, às 17h30. Nesse encontro a compositora Valéria Bonafé falará sobre sua tese de doutorado recém concluída “A casa e a represa, a sorte e o corte. Ou: A composição enquanto imaginação de formas, sonoridades, tempos [e espaços]” e também sobre algumas de suas composições.

 

Valéria Bonafé é compositora, pesquisadora e professora. Registros dos seus trabalhos podem ser encontrados no seu site www.valeriabonafe.com ou em www.soundcloud.com/valeriabonafe.

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Visões – “Imagem, imaginário e representações da mulher negra”, com Rosane Borges (Texto)

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.19.27No dia 06/06/2016 a rede Sonora recebeu, como convidada da série Visões, a jornalista e pesquisadora Rosane Borges. Rosane é Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Departamento de Jornalismo da ECA-USP, integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

Além de organizadora e coautora do livro “Mídia e Racismo”(2012), no qual apresenta um capítulo dedicado à discussão da imagem da mulher negra na mídia, possui diversos livros publicados, tais como “Jornal: da forma ao discurso” (2002), “Rádio: a arte de falar e ouvir” (2003) e “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (2004). No encontro com a rede Sonora, Rosane falou sobre um pouco de tudo isso. Contou sua trajetória rumo à construção da própria imagem como cidadã negra num país marcado pela colonização escravocrata, e da luta que assume, dia após dia, para mudar os paradigmas de representação da nossa sociedade. Não é a toa que ela integra todas as comissões citadas, atua como professora de comunicação e jornalismo e escreve no blog da revista Boitempo, entre outras publicações.

Rosane Borges ingressou no Movimento Negro bem jovem. Neste ambiente percebeu que, além das questões racistas, havia mais um obstáculo a transpor, pelo qual haveria de militar: as questões sexistas. Como exemplo, a jornalista aponta os diferentes índices de desenvolvimento humano presentes no Brasil se consideramos a população segundo a raça e o sexo: “Enfocando todo o povo brasileiro, o país fica em 79/80º lugar no panorama mundial. Se for considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Se considerada somente a população negra, este índice cai para o 100º lugar. E piora muito se olharmos a população feminina negra. Isto mostra a enorme desigualdade econômica, intimamente relacionada ao racismo e ao sexismo”.

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.56.39Estas questões estão relacionadas às políticas de representação. Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.

“Por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato, não precisa ser uma família de classe média alta para comprar. No entanto, as propagandas mostram pessoas brancas padrão norte europeu, casais heterossexuais, cachorros da raça “Golden” mesas fartíssimas. De onde se pode concluir que o objetivo não é vender margarina, mas sim impor uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar”.

Rosane observa que a população negra significa 51% do Brasil. Espantosamente, a maioria das pessoas não se questiona por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina. Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, não quer o racismo mas não questiona a realidade. Noções como “cabelo ruim” e valores diferenciados entre brancos e negros são assimilados todo o tempo. Isto tem a ver com as políticas de representação.

O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.

“No campo da música, a mutilação da cidadania é semelhante. O papel do homem e da mulher negra na música erudita, por exemplo, é pratica

mente nulo. A população negra fica restrita ao âmbito do que é considerado popular, ao samba, à capoeira e outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que as pessoas negras são limitadas”.

Ao final da conversa, Rosane Borges se definiu como uma pessoa de discurso pessimista, mas de ações otimistas. Ela enxerga os avanços e conquistas obtidas pelos coletivos e movimentos negros, assim como acredita em iniciativas de grupos como a rede Sonora.

Para ela, políticas de ação podem criar contra-representações, como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura pode e deve mudar o cenário cotidiano.

 

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Ata da 13ª Reunião (06/06/2016) Série Visões com Rosane Borges

Série Visões com Rosane Borges*:  “Imagem, Imaginário e Representações da Mulher Negra”

  • Rosane Borges iniciou o encontro contando que ingressou no Movimento Negro desde cedo, percebendo de imediato as questões sexistas.
  • Para ilustrar os números do racismo e do sexismo no Brasil, citou que o IDH do país o coloca em 79/80º lugar no panorama mundial. Se considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Já se considerada somente a população negra, o índice cai para o 100º lugar. E piora quantitativamente se considerada somente a população feminina negra.
  • O que isto tem a ver com a imagem da mulher negra, principalmente na mídia? O que esta imagem tem a ver com o mundo da música?
  • Os papeis do homem e da mulher negra na música erudita é praticamente nulo. Sua atuação fica restrita ao âmbito da música popular, do samba, da capoeira e de outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que estas pessoas são limitadas.
  • Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, mas não questiona a realidade. Ninguém se espanta com a falta de negros e negras na medicina, odontologia ou advocacia. As políticas de representação determinam quais posições negros e negras devem ocupar. Desde cedo aprende-se o que é o “cabelo ruim”, e que brancos e negros têm valores diferenciados.
  • Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.
  • Rosane cita, por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato. Não precisa ser uma família de classe média alta para comprar, mas a propaganda mostra pessoas brancas “caucasianas”, um casal heterossexual, um cachorro “Golden” e uma mesa fartíssima. Portanto, o objetivo não é vender margarina, mas sim uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar. A mensagem é clara e define os valores que devem ser perpetuados.
  • A população negra significa 51% do país. Só num país como o Brasil as pessoas não se questionam por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina.
  • O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.
  • Rosane diz que é preciso implodir o imaginário. Não basta ter boa intenção. É preciso abrir mão do privilégio de ser branco. É preciso abrir mão do privilégio de ser homem. É preciso dar um passo atrás, mudar as normas que atribuem reconhecimentos diferenciados.
  • Sobre o negro há um aprisionamento de imagem. Esta imagem antevê uma representação do que seria ser negro.
  • As pessoas não se comovem pelos negros. Do ponto de vista da visibilidade, negros, LGBT, e outras minorias não são consideradas humanas. O número de mortes de jovens negros não diz respeito à comunidade em geral, não aparece nos noticiários e não comove como deveria.
  • Como mudar esta realidade? Rosane propõe políticas de ação para criar contra-representações. Como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura poderia mudar o cenário cotidiano.
  • Finalmente, no campo da música Rosane aconselha a pesquisa das raízes da música sul-americana e mesmo da europeia, onde há vários indícios da passagem de negros e negras. Também não se pode imaginar os EUA sem negros, sem o jazz, entre outros estilos. O tango tem raízes negras. Há diversos instrumentos também, não só de percussão.

*Rosane Borges é Jornalista, Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Depto. de Jornalismo da ECA-USP. Integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Possui diversos livros publicados, entre eles: Jornal: da forma ao discurso (2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004).

 

Planejamento da próxima reunião – interna – dia 13/06/2016

  • Rosane Borges recomendou a leitura do texto “A partilha do sensível”.